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terça-feira

O VERDADEIRO MENDIGO

Entrou na loja com naturalidade, como se estivesse bem à vontade. Ele até que poderia estar, mas eu é que fiquei constrangido com a presença ali de pessoa tão diferente das demais. Afinal, estávamos numa das melhoras lojas de frutas e verduras da cidade. E definitivamente ali não era lugar para um esmoler vir perturbar os fregueses.

Os proprietários nem deviam permitir esse tipo de gente aqui dentro, pensei. E aguardei a mão estendida quando o velho aproximou-se de mim * chapéu de palha, calça suja e curta, chinelo velho. E como garantia suprema de que estava certa a minha imediata avaliação, ele era corcunda, o que lhe obrigava a andar bastante curvado e amparado numa bengala. A imagem perfeita e acabada de um pobre miserável.
Mas o ancião passa por mim sem dirigir-me palavra * para decepção do meu ego orgulhoso, já preparado para lhe negar a imaginada ajuda. Não demorei a me recompor intimamente, usando a desculpa de que 'pelo menos ele foi perturbar outro'. E esqueci.
Não se passam três minutos e lá o velho entra novamente no meu campo visual * e nas minhas confabulações. Só que agora ele tinha nas mãos algo que não pesava nem duzentas gramas, mas que atingiu como uma pedra os meus pensamentos: um molho de coentro.
Percebi de imediato a brutalidade das minhas conclusões. Ali estava um freguês como outro qualquer, aliás * por que não dizer? * como eu mesmo! E o homem encaminha-se para o caixa, entra na fila, tira do bolso umas poucas notas amassadas, paga a sua ínfima conta, recebe umas moedinhas de troco e vai embora * embora apenas da loja, pois ficou grudado como cola no meu pensamento.
A situação invertera: o velho saíra da loja com a dignidade de um senhor fazendo compras e me deixara tal qual um mendigo * pobre em nobreza, encurvado por uma consciência pesada como chumbo.
Por que essa mania mesquinha de julgar os outros pela aparência?
Mas eu tenho um consolo: não sou exceção. Pena que é um consolo típico dos vencidos * mas serve. O ser humano é um julgador inveterado. E diga-se, um péssimo julgador, pois está sempre errando. Até quando desprezaremos as experiências que comprovam a altíssima probabilidade de avaliarmos errado?
Se ouvíssemos mais a advertência da Bíblia, 'Não julgueis para que não sejais julgados', certamente teríamos muito menos do que nos arrepender.
Mas a fugaz passagem do velhinho me deixou com outra 'batata quente' na cabeça: e se ele fosse mesmo um mendigo? Por que sentir-me indignado com a sua inocente presença na mesma loja em que eu estava? E por que me vingar com um sêco NÃO quando ele me viesse pedir uma esmolinha? Dureza, muita dureza. E uma infinita distância dAquele que se compadecia das pessoas porque eram como ovelhas que não tinham pastor...
Extraído do livro: A Revolta das Canetas de Mauro Clark



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